As infindáveis 1001 noites


As 1001 Noites é uma obra única na história da literatura; uma verdadeira obra aberta, sem um original e constantemente modificada por seus herdeiros. A graphic novel The 100 nights of hero é mais uma destas obras, que desafia a imoral busca por uma conclusão final.

Espera-se magia ao encontrarmos essa cifra: 1001.

A magia, porém, não vem de seus gênios, feiticeiros, cavalos voadores ou outros elementos fantásticos comuns das narrativas árabes. É algo mais sutil, que envolve tanto a estrutura da obra, quanto seu contexto histórico e sua fascinante personagem principal: Scheherazade.

A obra é de origem medieval. Os manuscritos mais antigos estão incompletos e apresentam algumas diferenças entre si. Chegaram na Europa durante o auge do Iluminismo e foram traduzidos por Antoine Galland. Depois dele, vários outros, em diferentes idiomas, se dedicaram a produzir sua versão da obra. Nenhuma era similar à anterior, mas não por serem em diferentes linguagens ou se basearem em diferentes fontes. Cada autor decidia que este ou aquele elemento deveria ser acrescentado ou suprimido e alguns dos contos que mais tradicionalmente relacionamos com As 1001 noites, não faziam parte dela. Falamos de Aladim, Simbad e Ali Babá.

Ilustração de Kay Nielsen

A pátria da obra (que obviamente escolheu várias pátrias no mundo muçulmano) se surpreendeu com a fascinação ocidental por aquele trabalho, quando muito uma curiosidade popular. As 1001 noites não era considerada uma grande obra da literatura árabe.

As Noites, mais do que infinita por estar incompleta, se torna infinita por estar constantemente em produção. Seu poder salta para as obras de artistas tão díspares quanto Poe, Wordsworth, Voltaire, Guimarães Rosa, Borges, Pansollini e Rhimini Khorshakov. É a magia de ter se tornado fundamental no imaginário dos leitores, sem que seja lida. A magia de ser original prescindindo de uma origem.

LP do Ballet Scheherazade – Korsakoff

Em comum, a história moldura do heroísmo de Scheherazade. Se Hamlet, Quixote, Édipo, Arthur ou Raskólnikov se tornaram personagens modelos de um tipo, de uma narrativa ou destino, assim ela se tornou modelo da contadora de histórias. Scheherazade é uma heroína, que noite após noite enfrenta a morte (o destino certo). É uma inovação. Sim, existiram protagonistas, como Medeia, Cassiopeia ou Antígona no teatro grego, mas Scheherazade escolhe enfrentar uma monstruosidade que destruía sua sociedade. Antígona também, mas enquanto Antígona é uma personagem em constante resistência ao destino trágico de Tebas, Scheherazade é ação. Nunca é descrita fisicamente: ela se manifesta ao contar uma história. E curiosamente, ela age, sem nunca agir. Sabemos que tempo e espaço se relacionam. Scheherazade ignora isso e paralisa a ação. Estanca, enquanto o tempo passa.

A relação com a tradição oral e o poder feminino é comum. Scheherazade se torna a maior manifestação deste poder. Mas ela não pode ser reduzida a contadora de histórias. A personagem domina filosofia e literatura. É uma ponte entre o mundo letrado, culto, masculino, e o tradicional. O texto das 1001 Noites não era exatamente este tipo de texto, mas a personagem é. E a infinitude das 1001 Noites continuam quando Scheherazade e sua obra se manifestam em outras obras e meios.

1001 HQs
Nos quadrinhos, são inúmeras adaptações. Temos em Neil Gaiman, uma Scheherazade que em um dos capítulos mais celebrados de Sandman, Ramandan, traz Haroun Al-Rachid, personagem histórico que povoa as páginas das Noites, interagindo com Morfeus em uma Bagdá fabulosa. Marjane Satrapi em Bordados, uma espécie de obra-irmã de Persépolis, cria um círculo de Scheherazades, que se reúnem contando histórias.

Publicada em 2016, pela Little, Brown and Company, “The one hundred nights of Hero” é uma obra de Isabel Greenberg. O estilo de desenho lembra um pouco o estilo de Satrapi: preto e branco, um pouco caricato, sem linhas precisas. Conta a história de amor de Cherry e Hero, como história moldura. Elas formam um casal, em uma espécie de Europa Medieval, quando mulheres eram proibidas de ler. Cherry é obrigada a se casar, mas como é mais inteligente que o marido, consegue viver com Hero, até que o marido faz uma aposta com um amigo: ficaria cem noites ausentes e o amigo não conseguiria seduzir a esposa nestas cem noites.

Como a força de vontade de Cherry não impediria que fosse estuprada, Hero se torna Scheherazade e começa a contar histórias, versões de contos tradicionais como as Doze princesas bailarinas, registrado pelos Irmão Grimm, com viés feminista. É uma atualização do papel de Scheherazade, mas pouco ousada. O status da mulher na sociedade islâmica medieval era diferente do status da mulher na sociedade cristã. Scheherazade já era uma mulher de poder.

As mulheres nos contos de Hero (que se entrelaçam) também fazem a ligação entre o mundo tradicional e o escrito. Serem donas das histórias contadas de mãe para filha é parte da luta pelo acesso à leitura, simbolizado pela história das cinco irmãs leitoras que antecede a história da criação do grupo de contadoras de histórias de rua.

A tensão entre espaço estático e o tempo em movimento é representada de maneira poética: em determinado momento, o amigo do marido quer saber em qual noite estão. Os soldados, que ouvem as histórias, não têm certeza. Nem Hero tem certeza. E no fim, apenas o marido, que está longe demais para ouvir a história, sabe quando é a centésima noite.

A estrutura da graphic novel não é tão ousada quanto a das 1001 Noites, com suas ramificações, e a autora não representa cada noite, mas isso não importa. No fim, temos, mais uma vez, a constatação do poder mágico das 1001 Noites.

Ela continua infindável.

Texto escrito pelo colaborador convidado, João Camilo Torres – Escritor, poeta, editor, roteirista de quadrinhos e podcaster, com textos em antologias de contos e poemas publicados no Brasil e nos Estados Unidos. É o autor do roteiro da graphic novel “Sci Fi Punk Projects” publicada pela Devir.

Publicado por Lu d'Anunciação

Jornalista, Relações Públicas, Especialista em Gestão da Comunicação e Mestra em Estudos de Linguagens - Análise do Discurso do Cefet-MG. Gosto da natureza, de literatura, HQs, cinema, séries de TV, rpg, board games, de música boa e de nerdices em geral! Adoro preparar quitutes e receber os amigos. Insisto em ser feliz e sou altamente convivível! E amo o Leo!!! Além deste blog, tenho também o www.jeitosaudavel.wordpress.com e sou colunista de RPG e HQs do site Garotas Geeks - www.garotasgeeks.com

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