Enter Sandman

Nosso colaborador convidado João Camilo fala sobre Sandman, de Neil Gaiman

A adaptação para as telinhas da Netflix de Sandman chega agora em agosto. Como a maioria das adaptações dos personagens Marvel e DC, existe uma grande expectativa gerada pela base de fãs fermentada por anos de especulações.

Em geral, esse tipo de combustível é perigoso (e já gerou uma série de reações quanto ao elenco), mas Sandman é diferente de todas outras adaptações das duas editoras, ou da maioria delas. O que está sendo adaptado não é um personagem, mas a criação narrativa de um autor. Semelhante a isso, apenas material limitado como Watchmen. Que sabemos, não funcionou bem. E a qualidade do material original é bem superior ao que normalmente é adaptado, especialmente do ponto de vista literário. Estamos ou não falando de Watchmen? Não, é o Sandman de Neil Gaiman mesmo.

Para entender, é preciso voltar aos anos 80, quando Sandman aconteceu. A DC estava renovando vários personagens, sem bem saber com utilizá-los, e Gaiman havia acabado de estrear bem com “Orquídea Negra”. Não era o suficiente para entregar para ele um personagem principal, mas sim para oferecer um secundário. Sandman era um desses heróis que nunca, não importa quantas versões fossem criadas, emplacava. O visual não era interessante o suficiente e o tipo de histórias que o personagem participava nos anos 40s não era de interesse do público que a DC alimentava.

Gaiman percebeu a chance de fazer algo diferente. Toparam. Por um milagre, deram controle ao autor e até hoje, apenas Gaiman escreve as histórias do personagem. Existem produtos derivados, mas é uma surpresa que não tenham feito o desserviço que foi feito com Alan Moore.

A história começa fazendo referência às influências literárias de Gaiman, trazendo temas e imagens da literatura fantástica britânica do final do século XIX e começo do XX. Parte do sentimento decadentista e a melancolia do Twilight Celtic de Yeats é marcante na obra. Sonhos estão se esfacelando. A crença no progresso levou ao desacreditar e à desilusão. É uma série outonal.

A principal referência dos primeiros capítulos vem dos quadrinhos: é Alan Moore. Responsável por abrir caminho para autores ingleses no mercado editorial americano, Moore funciona como um fóssil vivo desta mesma tradição literária. Com o Monstro do Pântano, Moore iniciara a mudança que possibilitaria a fé em Sandman pela DC.

De início, a história dos dois personagens periféricos é a mesma: ambos estão inertes, precisam recuperar quem são (no caso do Monstro do Pântano, ele precisa recordar, que é uma forma de sonhar acordado). Gaiman reintroduz personagens que Moore usou: Caim, Abel e Etrigan, por exemplo, e principalmente, começa a viagem de Sandman com John Constantine, que foi o guia do Monstro.

A estrutura de Sandman permite que Gaiman use o que tem de melhor: sua voz de contador de histórias. As tramas interligadas de Sandman são uma moldura, que serve para apresentar várias histórias, seja na forma de contos em uma edição mensal ou dos arcos narrativos, como quando em uma delas, “A casa de bonecas”, o personagem Fiddler’s Dream conta uma versão da Chapeuzinho Vermelho para Rose Walker. É uma estrutura típica das adaptações literárias (em seu significado original, ou seja, escritas) das tradições narrativas orais. Não é por acaso que a obra arquetípica da oralidade levada à escrita, “As 1001 Noites”, esteja presente naquela que é, por muitos, considerada a melhor história publicada em um número de Sandman (Ramadan, nº50).

As referências literárias continuam enriquecendo a paisagem da obra. São piscadelas (como diria Umberto Eco) e não meros easter-eggs, pois fazem sentido dentro da construção narrativa da obra. Por exemplo, Fiddler’s é modelado em G.K.Chesterton, parte daquela influência literária britânica de Gaiman. Chesterton era defensor da imaginação e atacava o racionalismo típico da sociedade da época. Tanto que uma das suas citações mais famosas, é costumeiramente repetida na Internet como sendo de Gaiman, mas quem falou que contos de fadas são importantes não por afirmarem que existem dragões, mas por nos ensinar como derrotá-los foi Chesterton, não Gaiman.

Voltando aos arquétipos, este é outro elemento que Gaiman utiliza para a construção da narrativa. Os personagens principais são arquétipos. Por isso, é um ridículo ainda maior qualquer polêmica quanto aos atores escalados para a série. Se todos os personagens são representações simbólicas de elementos universais, isso significa que funcionam como alegorias, ou seja, símbolos específicos (ou qualquer ator) pode representá-las.

Sendo arquetípicos, os personagens passeiam mais facilmente por diferente cenários e histórias. Como as histórias orais que ignoram fronteiras e tomam novas roupagens para continuarem a existir por milhares de anos. Gaiman também usa as histórias para defender uma de suas principais bandeiras: a defesa da imaginação (que no mundo real é feita quando ele defende bibliotecas).

Sonhos – Gaiman é leitor do escritor argentino Jorge Luis Borges – são nada mais de uma das primeiras formas narrativas. Escrever é um sonho guiado. Sonhar é a imaginação explorando o seu potencial. Assim como o potencial gerado pela leitura, simbolizado pela Biblioteca do Sonho de Lucien, que tem livros imaginados. Sandman é, sem dúvida, a obra mais borgiana dos quadrinhos. E sonhos estão sendo perdidos em um mundo que reprime a imaginação, valoriza o banal e mundano e destrói as relações humanas.

Relações humanas, sim. Pois os Perpétuos (Sandman e sua família) podem ser sentimentos arquetípicos, ou suas representações, da humanidade (ou da vida), mas são apenas humanos. Todas suas histórias são sobre quão incompletos eles são sem a sua “mania”, que classificam como função. Toda a trama foca em como Sandman tem de se libertar de sua obsessão pelas suas obrigações profissionais e sentir-se realizado.

Mas, suas irmãs e irmãos sofrem igualmente. (Não vemos Destino sofrer, mas aposto que ele passa essas páginas do livro bem depressa). Não é apenas Desejo que tenta constantemente preencher o vazio que seus desejos (lacaniamente falando) deixam. São todos eles:um irmão abandona o posto e as coisas continuam sendo destruídas no universo. Talvez não a Morte. Ela entende toda a vida. Ela é plena. Porque uma vez a cada 100 anos, ela é lembrada deste vazio, desse desejo que ela tem pela vida e passa por uma ressignificação. Aquela história, contada na minissérie, é a terapia da personagem.

As aventuras de Gaiman pelo audiovisual têm resultados variados. Alguns bons, outros ruins. Poucos vão ter o peso de Sandman, que acredito ser o seu melhor e mais difícil material. Não é sobre ser fiel (satisfazer os fãs e a mania por um naturalismo imposto à fantasia, ou seja, não entenderam Sandman), ou descobrir como a série vai lidar com os outros personagens da DC (o que importa esses Universos). É ver a voz de contador de histórias presente na tela e entender que Sandman é uma história trágica.

Publicado por Lu d'Anunciação

Jornalista, Relações Públicas, Especialista em Gestão da Comunicação e Mestra em Estudos de Linguagens - Análise do Discurso do Cefet-MG. Gosto da natureza, de literatura, HQs, cinema, séries de TV, rpg, board games, de música boa e de nerdices em geral! Adoro preparar quitutes e receber os amigos. Insisto em ser feliz e sou altamente convivível! E amo o Leo!!! Além deste blog, tenho também o www.jeitosaudavel.wordpress.com e sou colunista de RPG e HQs do site Garotas Geeks - www.garotasgeeks.com

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