Batman e a pizza com uma rodela de tomate

O novo Batman de Matt Reeves explora a receita do gênero Noir, mas faltou cobertura na hora de finalizar essa pizza – Confira o review sem spoilers do novo filme do homem-morcego

Nos anos 80, a primeira versão de Blade Runner apresentava uma narração em off feita por Harrison Ford. Essa versão, editada sem a participação do diretor Ridley Scott, foi um fracasso de bilheteria, mas tornou-se um cult reverenciado pela crítica. O estúdio decidiu iniciar uma empreitada meramente comercial e surfar na onda da “versão do diretor”. A narração em off foi eliminada e notícias de como Harrison Ford teria feito a narração à revelia pipocaram e espalhou-se o conceito de como filmes que utilizam tal recurso são mais pobres. Esse tipo de argumento ganhou ares de verdade absoluta nos 90, sendo repetida toda vez que uma nova versão de Blade Runner era lançada, cada uma mais irrelevante do que a anterior.

Hoje, sabemos que a história da revelia de Harrison Ford foi mal contada, e que, isso sempre soubemos, narração em off, assim como qualquer outro recurso, não é algo inerentemente ruim. De fato, é uma característica do estilo Noir, exatamente o que o filme procurava emular. Removê-la era uma espécie de atentado estético e os discursos defendendo este atentado ignoravam a história do gênero.

Matt Reeves não comete este erro. Ele conhece o gênero. Batman narra o filme em off e não é único elemento do Noir no filme. Até mesmo o colarinho da capa do Batman, que permite uma movimentação mais livre do personagem, remete aos capotes borgatianos. 

A trilha sonora de Michael Giacchino, talvez a melhor coisa do filme, tem algo que faz lembrar as trilhas sonoras dos anos 1940 e 1950, de compositores como Bernard Hermann, e, ao modernizar a atmosfera do night club, espaço fundamental do Noir, não deixou de lado a influência do jazz, como pode ser ouvido no tema da Mulher Gato. Em suma, o Batman é um personagem de filme noir.

A narrativa em off não é por acaso. Muito do filme Noir foi influenciado pelos escritos de escritores como Dashiell Hamett e Raymond Chandler (que também trabalharam para Hollywood), principais nomes da novela policial norte-americana, depois de Poe. Os livros de detetive americanos se diferenciavam dos ingleses principalmente em um aspecto: deixavam de lado as peripécias intelectuais de Holmes e Poirot para investir em um realismo sujo, mais humano. Existe mais trabalho físico e com isso uma fragilização do detetive. Mas em outro aspecto, eles se parecem: a novela é centrada neste personagem. O que ele pensa é relevante e uma forma de levar esse pensamento para a tela foi o uso da narrativa em off.

O Batman de Reeves é mais este personagem do que o super-herói. Este Batman atua nas ruas. Nunca antes, em um filme do personagem, o Batman andou tanto. Nada de saltos de arranha-céus constantes. A teatralidade do personagem ganha importância, pois ele tem menos recursos especiais para enfrentar os bandidos que encontra. Claro, os apetrechos ainda estão presentes, mas compare com os filmes anteriores para ver a diferença entre como e quando o Batman os utiliza. Da mesma forma, a personagem de Selina Kyle, apesar da aparência, funciona como uma versão moderna da mocinha inocente, que instiga o detetive a agir. Mesmo que seja uma versão moderna, que “sabe cuidar de si mesma”.

Essa estrutura, basicamente criada na primeira metade do filme, funciona. Então… acontece que Batman não sabe como entregar a pizza que preparou.

Um problema é que, apesar da estrutura, não há uma história interessante para ser seguida. Transformar o Charada no assassino Zodíaco não acrescenta em nada ao personagem. O Charada já usava enigmas décadas antes do serial-killer aterrorizar São Francisco. O que acontece efetivamente é que ele se tornou apenas uma versão do Coringa. 

O discurso político do “privilégio do homem branco” é no máximo uma rodela de tomate no topo da pizza. Não que não exista ou seja importe. O problema é a superficialidade do discurso. Especialmente quando o Charada antagoniza outro homem branco, este um milionário, que não precisa passar por nenhuma “crise de consciência” para seu triunfo final (vestir uma roupa de morcego e espancar pessoas não é uma forma de lidar com privilégios de classe, gênero e cor: continua sendo uma forma de auto satisfação e o longa-metragem sabe, já que o bordão do personagem é “eu sou a vingança”). 

No filme do Coringa, a tentativa de dar relevância ao debate político gerou um discurso contraditório e frágil. Em Batman, temos algo superficial, que deixa de assumir qualquer risco, que um verdadeiro debate demanda. O pior é a forma frágil como os “pecados” de Thomas Wayne são perdoados. Ele era um homem bom. Apenas isso. Espero que os dubladores do filme usem “de bem”, pois toda ironia será perdoada.

Isso acontece porque não há Bruce Wayne no filme. Até o momento, apenas nos filmes de Nolan existe um Bruce Wayne. Nos longas de Tim Burton, a péssima escolha de ator, impediu que existisse um Bruce Wayne. No filme de Reeves, o motivo é simples: o detetive noir não tem identidade secreta. Um mérito do filme é não cair em clichês do Batman, que todos os filmes e séries de TV são culpadas: as inevitáveis referências aos quadrinhos de Frank Miller e Alan Moore, que definiram o personagem nos anos 80. Reeves, porém, adota outro clichê: de que a máscara é o verdadeiro eu.

Isso é um erro. O Batman é o trauma de Bruce Wayne se manifestando. Não Bruce Wayne, outro personagem, das colunas sociais, mas o Bruce Wayne que interage com Alfred (e os outros, ocasionais membros da família Batman). No filme, temos cenas com esse Bruce Wayne, mas como ele existe apenas vagamente, o que encontramos é uma série de apelos emocionais e um penteado emo. 

Não é culpa do ator, é do roteiro. Não é apenas o personagem principal que sofre com essa falta de caracterização. O Charada não significa nada, exceto uma espécie de meme e discurso político superficial. O Pinguim? Prostéticos. Carmine Falcone? Um clichê ancorado na imagem de John Turturro. Até Selina é esvaziada, afinal, ela tem de ser resgatada pelo (the) Batman no final. A confiança e autossuficiência que Zoë Kravitz transmite, evapora-se.

Sem uma história e elementos humanos, a segunda parte do filme afunda (e permite esse trocadilho) e se arrasta. As intenções de mostrar um Batman ainda inexperiente e, talvez, em uma sequência, mostrar o personagem já evoluído de vingança para justiça, são claras. Mas não têm sabor. Reeves consegue criar uma identidade e, é claro, um novo filme pode ignorar todos esses problemas, mas neste, faltou substância e sobrou estilo.

Texto escrito pelo colaborador convidado, João Camilo Torres – Escritor, poeta, editor, roteirista de quadrinhos e podcaster, com textos em antologias de contos e poemas publicados no Brasil e nos Estados Unidos. É o autor do roteiro da graphic novel “Sci Fi Punk Projects” publicada pela Devir.

Publicado por Lu d'Anunciação

Jornalista, Relações Públicas, Especialista em Gestão da Comunicação e Mestra em Estudos de Linguagens - Análise do Discurso do Cefet-MG. Gosto da natureza, de literatura, HQs, cinema, séries de TV, rpg, board games, de música boa e de nerdices em geral! Adoro preparar quitutes e receber os amigos. Insisto em ser feliz e sou altamente convivível! E amo o Leo!!! Além deste blog, tenho também o www.jeitosaudavel.wordpress.com e sou colunista de RPG e HQs do site Garotas Geeks - www.garotasgeeks.com

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