O Legado de Júpiter foi a primeira adaptação da Netflix dos quadrinhos de Mark Millar, o falado Millarworld. Ele segue uma primeira geração de super-heróis que vem mantendo o mundo seguro por quase um século.

Daí, seguimos dois caminhos: mostrar os filhos desses guerreiros e uma nova geração de possíveis heróis, e mostrar como a primeira geração conseguiu seus poderes. Mas infelizmente ambas as tramas correm paralelamente e de maneira absolutamente morosa.

Trabalhando com enquadramentos diferentes para individualizar as linhas temporais, a série acaba ditando o mesmo ritmo para as duas tramas que se arrasta durante oito episódios sem necessariamente empolgar em nenhum momento, ou talvez apenas no ultimo episódio aonde uma reviravolta acaba acontecendo e revelando o verdadeiro vilão da série.

Grande parte do seu potencial fica para outras temporadas. E talvez jamais se cumpram. Isto porque enquanto as revistas de Millar trabalham com genialidade e velocidade envolvendo o leitor rapidamente com um enredo cheio de reviravoltas e poucas explicações óbvias, a série da Netflix quer tentar desenvolver relações complexas metade de seu tempo de produção tratando sobre relações familiares desestruturadas, lealdade, poder e transformação da sociedade e a outra metade retrata incessantemente as perturbações e devaneios do personagem principal, na tentativa inútil de justificar um possível comportamento dele no futuro, quando na verdade parecem até duas pessoas completamente diferentes.

A história no passado acompanha Sheldon Sampson (Josh Duhamel) que testemunhou o suicídio do próprio pai e que a partir desse momento ouve vozes, zumbidos e tem visões loucas que, contra qualquer lógica, o capacitam para guiar seu grupo em busca de alguma coisa que nem ele nem ninguém sabem o que é.

Essa busca se arrasta ao longo dos episódios, até que uma excursão rumo a uma ilha é idealizada. Forma se então um grupo com seis pessoas desconfiadas e até desconhecidas, alias uma delas junta se ao grupo em pleno mar aberto no meio do nada, mas todas com algo em comum: confiar em alguém que elas mesmas julgam estar louco.

Ao final dessa absurda jornada, os heróis após enfrentarem desafios de confiança e união, colocam as suas diferenças de lado para receberem algo, que entendemos que são os poderes.

Cem anos depois, Sheldon agora é O Utópico, uma espécie de Super-Homem envelhecido e disposto a passar o bastão para os novos heróis – filhos dele e dos demais integrantes do grupo denominado União. Na fase atual a série tenta discutir um tal código de conduta, determinado pelo Utópico, que acaba gerando conflitos  entre os novos heróis e principalmente entre os filhos dos heróis originais.

Um filho herói salva a vida do pai quebrando o código de conduta que este defendeu por tantos anos. O pai, que sequer estaria vivo, não fosse a atitude do filho, acaba por puni-lo. Essa discussão, que tem um gigantesco potencial, acaba sendo tratada de maneira tão óbvia e tão rasa que essa dualidade se perde no roteiro, não nos fazendo pensar e nem questionar sobre as consequências de um mundo real com super heróis entre nós.

O momento da história em que as produções baseadas em quadrinhos, sobretudo as que envolvem super-heróis, estão se tornando mais e mais repetitivas, gera uma demanda diferente do que já existe. Por isso o desenvovimento de produções mais maduras como “The Boys” e “Invincible” passa a ser cada vez mais comum.

Aliás The Boys, que parece ser a grande motivação para as decisões tomadas pela equipe criativa de Legado de Júpiter, conseguiu sucesso exatamente aonde  a série da Netflix falha, ao estender seu conteúdo alem do que os quadrinhos mostra sem perder qualidade, coerência e acima de tudo identidade.

Conhecer um pouco das HQs que deram origem a “O Legado de Júpiter” nos mostra o quanto a série tinha – e talvez ainda tenha – potencial para apresentar algo único, e devido a escolhas de roteiro, acaba entregando algo tão aquém desse potencial.

Mostrar a origem dos poderes desses heróis é algo possível de se trabalhar bem em dois episódios, e não se arrastando por oito, com repetições desnecessárias e conflitos vazios. É visível o quanto “O Legado de Júpiter” é prejudicado por essa decisão – o coitado do filho de Sheldon, Brandon (Andrew Horton), em um momento parece ser o grande catalisador da trama, para em seguida passar três capítulos sem sequer aparecer. É esse tipo de falha marcante no roteiro que, independente de bons efeitos visuais e valor de produção, acaba transformando algo de grande potencial em um entretenimento inchado e enfadonho.

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